Impactos do isolamento social na saúde mental de adolescentes

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Redação: Isabel Santana Gervitz*

A pandemia de coronavírus convocou crianças, adolescentes e adultos a encarar o medo de contágio, os lutos provenientes das muitas perdas desse período e as restrições do isolamento. A forma de lidar com esses desafios foi muito singular, não sendo possível generalizar comportamentos ou reações. Entretanto, quando pensamos nos jovens e adolescentes e nas especificidades desse momento de vida, conseguimos refletir sobre alguns dos impactos gerados por tantas alterações.

A restrição dos encontros

A adolescência é uma fase de descobertas e experiências. Ocorrem mudanças no corpo e o desejo sexual emerge, a vida social ganha importância, os jovens são convocados a atividades fora do ambiente familiar com maior constância e adquirem novas responsabilidades. O lugar ocupado nos grupos de amigos, nas parcerias amorosas, na escola e no mundo passa por transformações significativas.

O isolamento forçado pela pandemia restringiu os encontros entre os jovens e a possibilidade de circular de forma independente, limitando as relações ao espaço virtual e ao convívio familiar.

O contato virtual

A comunicação online já fazia parte da realidade da maioria dos adolescentes, mas nunca de forma exclusiva. Isso reverberou nas interações que, nessa fase da vida, incluem grandemente a comunicação não verbal. A expressão por meio do estilo de se apresentar, de se vestir e de assumir posturas e gestos ao se relacionar ficou bastante limitada. Houve drástica redução do contato corporal e sexual. Encontros e celebrações foram cancelados, inclusive certos ritos de passagem como festas e viagens de formatura. Há um luto pela vida que se vivia e também pelos planos tão esperados que não puderam acontecer.

Isso gerou em muitos adolescentes sentimentos de desânimo, desinteresse pelas interações virtuais, tristeza e apatia. “Para que se arrumar se ninguém vai me ver?”; “Para que conversar se não poderemos nos encontrar ou sair?”; “Qual a graça em encontrar alguém de máscara e com tantos protocolos a seguir?”. Para outros a situação despertou raiva por não poder circular e ter que refrear as liberdades recém conquistadas. Muitas vezes isso manifestou-se em comportamentos de risco, brigas e quebras de regras e acordos.

A perspectiva dos tímidos

Ao mesmo tempo, para jovens que sentiam nas relações sociais grandes desafios, o isolamento trouxe certo alívio. Nesse caso, será preciso observar como lidam com a ideia de voltar às atividades presenciais, considerando que isso poderá ser fonte de angústia.

A convivência familiar

Para além da distância dos amigos e parceiros amorosos, o isolamento social levou ao acirramento da convivência familiar. Em alguns lares isso gerou situações de sofrimento e conflito, especialmente em famílias que vivem em espaços restritos, com pouca condição de privacidade.

Na adolescência é esperado que haja maior questionamento do funcionamento familiar. Percebe-se de forma mais clara que os adultos não são tão poderosos e infalíveis quanto pareciam na infância e surgem críticas e enfrentamentos. Quando essas inquietações estão em jogo justamente num momento em que é obrigatório conviver de forma muito próxima, a tensão é acentuada. Acrescente-se a isso o fato de os adultos não saberem bem como resolver os impasses da pandemia, contribuindo para a desilusão com essas referências e intensificando sentimentos de revolta, indignação e raiva.

A necessidade de compreender o contexto excepcional da pandemia

É importante que as famílias e escolas tenham paciência e saibam que não será possível exigir dos jovens (e de si) uma conduta equivalente ao que esperariam caso não houvesse pandemia. As rotinas foram profundamente alteradas, expectativas foram quebradas e liberdades foram reduzidas. É natural que isso tenha efeitos no rendimento escolar, nos hábitos e no humor. Entretanto, é recomendável buscar ajuda psicológica caso sejam identificadas mudanças muito radicais de comportamento ou alterações constantes de apetite, sono e humor.

Os adultos devem estar disponíveis para conversar com os jovens, respeitando sua privacidade. Permitir que falem do que estão pensando e compartilhar parte dos próprios sentimentos e apreensões pode ser um caminho interessante para abrir o diálogo. Também é importante tentar organizar uma rotina junto com os adolescentes, permitindo certa autonomia, mas dando o apoio necessário para que não abandonem atividades físicas, escolares, sociais e de autocuidado.

O tempo em frente à tela certamente será maior nesse período, mas isso pode ser mediado por outras interações. A monotonia dos dias dentro de casa poderá levar a letargia e apatia, por isso é fundamental criar pequenas variações na rotina e marcar a passagem do tempo alternando momentos de lazer e estudo, convivência e solidão.

*Isabel Santana Gervitz é graduada em Psicologia pela PUC-SP e realizou Formação em Psicanálise no Centro de Estudos Psicanalíticos. Atuou em escolas públicas e particulares elaborando projetos de escuta e intervenção institucional. Integrou a equipe da ONG Laboratório de Educação produzindo materiais diversos e coordenando projetos. Atualmente dedica-se a atendimentos em consultório particular.